Leia o excerto a seguir transcrito.
Em caso de necessidade, consulte o glossário apresentado.
O carro lento passou.
E logo atrás surdiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro o cajado, donde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais.
E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado.
O outro, porém, estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo.
Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
– Olá! É você, José! Então que temos? O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho.
Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
– Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse à palavra! Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa – como se levantasse uma massa de ferro:
– Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! Em que lhe faltei eu à palavra?.
.
.
Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu.
.
.
O Casco emudecera, assombrado.
Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
– Se houvesse papel assinado, o Fidalgo não podia recuar!.
.
.
Mas era como se houvesse, para gente de bem!.
.
.
Até V.
S.
disse, quando eu aceitei:
«Viva! está tratado!.
.
.
» O Fidalgo deu a sua palavra! Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
– Escute, José Casco.
Aqui não é lugar, na estrada.
Se quer conversar comigo, apareça na Torre.
Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã.
.
.
Vá amanhã, não me incomoda.
E endireitava para o pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha – quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
– O Fidalgo há de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!.
.
.
A mim não se me fazem dessas desfeitas.
.
.
O Fidalgo deu a sua palavra! Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado.
[.
.
.
] Entre os troncos já se adensava sombra e névoa.
Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo.
E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trémulos:
– Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar.
Pode haver desgosto, aparecer o regedor.
Depois é o tribunal, é a cadeia.
E você tem mulher, tem filhos pequenos.
.
.
[.
.
.
] Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
– Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!.
.
.
Pois ainda por cima de me fazer a maroteira, me ameaça com a cadeia!.
.
.
Então, cos diabos! Primeiro que entre na cadeia lhe hei de eu esmigalhar esses ossos!.
.
.
Erguera o cajado.
.
.
– Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
– Fuja, Fidalgo, que me perco!.
.
.
Fuja que o mato e me perco! Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada! Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, edição de Elena Losada Soler, Lisboa, IN-CM, 1999.
GLOSSÁRIO:
carreira (linha 47) – corrida muito rápida.
choupa (linha 10) – peça pontiaguda de metal, colocada na extremidade de um pau.
escritura (linha 16) – documento legal, lavrado pelo notário, que valida um contrato.
esgalgado (linha 5) – alongado.
estugou (linha 5) – apressou; acelerou.
marmeleiro (linha 10) - varapau ou cajado feito da haste da árvore com o mesmo nome.
regedor (linha 36) – funcionário que governava administrativamente uma freguesia.
surdiu (linha 1) – surgiu.
V.
S.
(linha 21) - Vossa Senhoria.
Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.
1.
Refira seis traços físicos pertinentes do retrato que vai sendo feito de José Casco dos Bravais.