Resposta correta
C
Explicação
A questão aborda a interdisciplinaridade no desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) e o papel da Filosofia. O texto introdutório destaca que, além de engenheiros e matemáticos, são necessários sociólogos, economistas, juristas e filósofos para enfrentar a diversidade de problemas da IA. A opção (C) "Até onde pode ir o uso responsável da IA?" é a que melhor se alinha com as preocupações éticas e morais que são tradicionalmente abordadas pela Filosofia, como a definição de limites, responsabilidade e valores. As outras opções (A, B, D) referem-se a impactos sociais, legais ou económicos, que, embora possam ter implicações filosóficas, são problemas mais diretamente tratados por outras áreas mencionadas no texto.
⚠ Erro comum: Confundir o papel da Filosofia com o de outras disciplinas, como Sociologia ou Direito, ao analisar os impactos da IA. | Focar-se apenas nos aspetos técnicos ou económicos da IA, ignorando as dimensões éticas e de responsabilidade.
Resposta correta
A
Explicação
A questão pede para identificar o tipo de proposição expressa pela frase "Aprender é bom se, e apenas se, contribuir para o florescimento humano.". A expressão "se, e apenas se" é o conetivo lógico que define uma bicondicional. Uma bicondicional (ou equivalência) é verdadeira se e somente se ambas as proposições que a compõem têm o mesmo valor de verdade. As outras opções representam diferentes tipos de proposições lógicas: condicional ("se... então..."), disjunção ("ou...") e conjunção ("e...").
⚠ Erro comum: Confundir a bicondicional com a condicional, que usa apenas "se... então...".
Resposta esperada
B
Explicação
A questão pede a representação do argumento na linguagem da lógica proposicional. Vamos analisar o argumento: "Perry é um ornitorrinco; ora, se é um ornitorrinco, então tem bico, mas não é uma ave; por isso, Perry não é uma ave."
Vamos atribuir letras às proposições simples:
P: Perry é um ornitorrinco.
Q: Perry tem bico.
R: Perry é uma ave.
O argumento pode ser decomposto em:
1. Perry é um ornitorrinco (P)
2. Se é um ornitorrinco, então tem bico, mas não é uma ave (P ? (Q ? ¬R))
3. Por isso, Perry não é uma ave (¬R)
No entanto, a representação lógica deve capturar a estrutura do argumento. A segunda premissa "se é um ornitorrinco, então tem bico, mas não é uma ave" pode ser simplificada para o que é relevante para a conclusão. O que nos interessa é que "se é um ornitorrinco, então não é uma ave".
Assim, temos:
Premissa 1: P (Perry é um ornitorrinco)
Premissa 2: P ? ¬R (Se é um ornitorrinco, então não é uma ave)
Conclusão: ¬R (Perry não é uma ave)
Esta estrutura corresponde ao Modus Ponens, que é representado como P, P ? Q ? Q. Adaptando para o nosso caso, seria P, P ? ¬R ? ¬R.
Analisando as opções:
(A) P, P ? Q ? R ? R - Incorreto, pois a conclusão é ¬R e a segunda premissa não é Q ? R.
(B) P, P ? ¬R ? ¬R - Correto. P é "Perry é um ornitorrinco", P ? ¬R é "se é um ornitorrinco, então não é uma ave", e ¬R é "Perry não é uma ave". Esta é a representação mais fiel e simplificada do argumento.
(C) P ? Q ? R ? R - Incorreto, falta a primeira premissa P e a conclusão é ¬R.
(D) P ? ¬R ? ¬R - Incorreto, falta a primeira premissa P.
Portanto, a opção (B) é a representação correta.
⚠ Erro comum: Não identificar corretamente as proposições simples e os conetivos lógicos. | Incluir elementos irrelevantes da premissa na representação lógica, como "tem bico", que não é essencial para a conclusão "Perry não é uma ave".
Resposta correta
C
Explicação
A questão apresenta um argumento indutivo: "O céu está muito nublado, e o vento começou a soprar com muita intensidade, e, normalmente, nestas circunstâncias, acaba por chover. Portanto, hoje vai chover."
Num argumento indutivo, mesmo que as premissas sejam verdadeiras, a conclusão não é uma consequência lógica necessária das premissas. A conclusão é apenas provável. A frase "normalmente, nestas circunstâncias, acaba por chover" indica uma generalização baseada na experiência passada, o que é característico de um argumento indutivo.
Analisando as opções:
(A) é provável e é também uma consequência lógica da premissa. - Incorreto. A conclusão é provável, mas não é uma consequência lógica (não é dedutivamente válida).
(B) não é provável, mas é uma consequência lógica da premissa. - Incorreto. A conclusão é provável e não é uma consequência lógica.
(C) é provável, mas não é uma consequência lógica da premissa. - Correto. A premissa "normalmente, nestas circunstâncias, acaba por chover" torna a conclusão "hoje vai chover" provável, mas não garante a sua verdade de forma dedutiva.
(D) não é provável nem é uma consequência lógica da premissa. - Incorreto. A conclusão é provável.
Portanto, a opção (C) descreve corretamente a natureza da conclusão de um argumento indutivo como o apresentado.
⚠ Erro comum: Confundir argumentos indutivos com dedutivos, assumindo que a conclusão de um argumento indutivo é uma consequência lógica necessária. | Não reconhecer a natureza probabilística da conclusão em argumentos indutivos.
Resposta correta
D
Explicação
A questão pede para identificar os tipos de argumentos usados por Emília, Beatriz e José.
- Emília: "De todas as vezes que a polícia me mandou parar na estrada, fui tratada com gentileza. Portanto, as forças policiais que atuam na estrada abordam sempre as pessoas com gentileza." Emília parte de casos particulares (suas experiências) para uma conclusão geral ("sempre"). Isso é uma generalização (ou argumento indutivo por generalização).
- Beatriz: "Contudo, sei que as forças policiais devem abordar os cidadãos com gentileza, pois ouvi o diretor da Escola Prática de Polícia numa entrevista, e ele disse que é assim que as forças policiais devem abordar os cidadãos." Beatriz baseia a sua crença na autoridade do diretor da Escola Prática de Polícia. Isso é um argumento de autoridade.
- José: "Admitamos que, como a Beatriz referiu, as forças policiais devem abordar os cidadãos com gentileza; e admitamos também que, como a Emília referiu, as forças policiais que atuam na estrada abordam todas as pessoas com gentileza. Sendo assim, é correto afirmar que as forças policiais que atuam na estrada cumprem efetivamente o seu dever de abordar os cidadãos com gentileza." José parte de duas premissas (uma sobre o dever e outra sobre o comportamento real) e deduz uma conclusão que se segue necessariamente delas (o cumprimento do dever). Isso é uma dedução.
Combinando as análises, temos: Emília (generalização), Beatriz (argumento de autoridade), José (dedução). Esta sequência corresponde à opção (D).
⚠ Erro comum: Confundir generalização com previsão ou argumento por analogia. | Não distinguir entre um argumento de autoridade e uma dedução.
Resposta correta
B
Explicação
A questão pede para identificar a tese defendida tanto pelos deterministas radicais como pelos libertistas. Ambas as posições, embora opostas na sua conclusão sobre a existência do livre-arbítrio, partilham uma premissa fundamental: a incompatibilidade entre livre-arbítrio e determinismo.
- Deterministas radicais defendem que o determinismo é verdadeiro e, portanto, não há ações livres.
- Libertistas defendem que há ações livres e, portanto, o determinismo é falso (ou seja, nem tudo está determinado).
Ambos concordam que se há ações livres, então o determinismo não pode ser universal (nem tudo está determinado). Ou, de forma equivalente, se o determinismo é verdadeiro, então não há ações livres. Esta é a tese da incompatibilidade.
Analisando as opções:
(A) Não há ações livres, e tudo está determinado. - Esta é a tese do determinismo radical, não do libertismo.
(B) Se há ações livres, então nem tudo está determinado. - Esta é a tese da incompatibilidade. Se há ações livres, então o determinismo (que afirma que tudo está determinado) não pode ser verdadeiro. Tanto deterministas radicais quanto libertistas aceitam esta relação condicional, embora discordem sobre a verdade do antecedente e do consequente.
(C) Se há ações livres, então nada está determinado. - Esta é uma afirmação mais forte do que a incompatibilidade e não é necessariamente partilhada por ambos. O libertista diria que nem tudo está determinado, mas não que *nada* está determinado.
(D) Há ações livres, e nem tudo está determinado. - Esta é a tese do libertismo, não do determinismo radical.
Portanto, a opção (B) representa a tese da incompatibilidade, que é um ponto de partida comum para ambas as posições.
⚠ Erro comum: Confundir a tese da incompatibilidade com a tese específica de uma das posições (determinismo radical ou libertismo). | Não compreender que a incompatibilidade é uma premissa partilhada, mesmo que as conclusões sejam opostas.
Resposta correta
A
Explicação
O texto de S. Blackburn aborda a questão da consciência dos processos que sustentam as nossas ações e estados mentais. O autor afirma que "É certamente verdadeiro que, ao escolher, não temos consciência dos múltiplos processos que sustêm os nossos estados mentais." e que "Isto significa que a «consciência da liberdade» é coisa que não existe."
Analisando as opções:
(A) não temos consciência do livre-arbítrio. - Esta opção está diretamente alinhada com a afirmação do texto: "a «consciência da liberdade» é coisa que não existe." O texto argumenta que não temos consciência dos processos subjacentes às nossas escolhas, o que implica que não temos consciência da nossa liberdade (livre-arbítrio).
(B) temos livre-arbítrio. - O texto não afirma nem nega a existência do livre-arbítrio, mas sim a nossa *consciência* dele.
(C) não temos livre-arbítrio. - Embora o texto possa ser interpretado como uma inclinação para o determinismo, a afirmação explícita é sobre a *consciência* da liberdade, não sobre a sua existência ou inexistência.
(D) temos consciência do livre-arbítrio. - Esta opção é o oposto do que o texto afirma explicitamente.
Portanto, a opção (A) é a que melhor reflete a tese explicitamente defendida no excerto.
⚠ Erro comum: Confundir a ausência de consciência do livre-arbítrio com a ausência do próprio livre-arbítrio. | Interpretar o texto como uma defesa do determinismo em vez de uma afirmação sobre a nossa capacidade de ter consciência da liberdade.
Resposta correta
A
Explicação
De acordo com a ética deontológica de Kant, uma ação é moralmente boa se for realizada por dever, ou seja, se a sua motivação for o respeito pela lei moral. Kant distingue entre agir *por dever* e agir *conforme ao dever*. Agir conforme ao dever significa que a ação está de acordo com o que a lei moral exige, mas a motivação pode ser outra (ex: interesse próprio, inclinação). Agir por dever significa que a ação é realizada *porque* é o dever, independentemente de inclinações ou consequências.
Analisando as opções:
(A) seja determinada pelo dever. - Esta é a posição kantiana. A moralidade de uma ação reside na sua motivação, que deve ser o dever.
(B) tenha motivações altruístas. - Embora o altruísmo possa levar a ações conforme ao dever, para Kant, a moralidade não reside na inclinação (mesmo que altruísta), mas no dever.
(C) seja conforme ao dever. - Agir conforme ao dever não é suficiente para uma ação ser moralmente boa; ela deve ser realizada *por* dever.
(D) tenha consequências benéficas. - Kant rejeita as éticas consequencialistas. Para ele, as consequências não determinam a moralidade da ação.
Portanto, a opção (A) é a que melhor representa a perspetiva de Kant sobre a moralidade de uma ação.
⚠ Erro comum: Confundir "agir por dever" com "agir conforme ao dever". | Atribuir a Kant uma ética consequencialista ou baseada em inclinações (mesmo que altruístas).
Resposta correta
D
Explicação
A questão refere-se ao princípio da igual liberdade de Rawls. Este princípio estabelece que cada pessoa deve ter um direito igual ao mais extenso sistema de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdades para todos. No contexto da religião, isto significa que o Estado deve garantir a liberdade religiosa para todos os cidadãos, sem favorecer ou desfavorecer qualquer religião.
Analisando as opções:
(A) promover, indistintamente, todas as religiões. - O Estado deve garantir a liberdade de religião, mas não necessariamente promover ativamente todas as religiões, o que poderia implicar um gasto de recursos ou um envolvimento excessivo.
(B) respeitar, mas não promover, apenas a religião maioritária. - Isto violaria o princípio da igual liberdade, pois daria um tratamento preferencial à religião maioritária.
(C) promover, excecionalmente, apenas as religiões minoritárias. - Embora possa haver políticas de apoio a minorias, o princípio da igual liberdade foca-se na igualdade de direitos, não na promoção ativa e excecional de um grupo religioso em detrimento de outros.
(D) respeitar, mas não promover, todas as religiões. - Esta opção está de acordo com o princípio da igual liberdade. O Estado deve garantir que todos os cidadãos tenham a liberdade de praticar (ou não praticar) a sua religião, sem interferência ou discriminação, mas não deve promover ativamente nenhuma religião em particular, mantendo-se neutro.
Portanto, a opção (D) é a que melhor se alinha com o princípio da igual liberdade de Rawls no que diz respeito à religião.
⚠ Erro comum: Confundir a garantia da liberdade religiosa com a promoção ativa das religiões pelo Estado. | Não compreender que o princípio da igual liberdade implica neutralidade estatal em relação às diferentes religiões.
Resposta correta
A
Explicação
A questão baseia-se num excerto de Rawls sobre o princípio da diferença. Este princípio afirma que as desigualdades sociais e económicas são justas apenas se beneficiarem os membros menos favorecidos da sociedade. O texto explica que, embora se possa pensar que o princípio exige uma redução drástica das posses dos mais ricos, isso é um "conceção errada" em circunstâncias normais. Rawls argumenta que impostos muito altos, destinados a aumentar o mínimo para os menos favorecidos, podem "interferir de tal modo com a eficiência económica que as perspetivas dos menos favorecidos [...] deixam de melhorar e começam a declinar."
Analisando as opções:
(A) requer que a eficiência económica não fique comprometida. - O texto indica que se a eficiência económica for comprometida por impostos excessivos, as perspetivas dos menos favorecidos pioram. Isso sugere que o princípio da diferença, em circunstâncias normais, deve ser aplicado de forma a não prejudicar a eficiência económica, para que os menos favorecidos continuem a beneficiar.
(B) estabelece um mínimo muito elevado de bem-estar social. - O texto diz que "À primeira vista, pode parecer que o princípio da diferença requer um mínimo muito elevado. Podemos naturalmente pensar que as maiores posses dos que se encontram melhor devem ser reduzidas até que todos tenham praticamente o mesmo rendimento. Mas esta é uma conceção errada...". Portanto, esta opção é contrariada pelo texto.
(C) exige que a riqueza dos mais afortunados seja fortemente diminuída. - O texto refuta esta ideia, explicando que uma redução excessiva pode prejudicar os menos favorecidos ao comprometer a eficiência económica.
(D) conduz à igualdade de rendimento entre afortunados e desfavorecidos. - O princípio da diferença permite desigualdades, desde que beneficiem os menos favorecidos. O texto explicitamente rejeita a ideia de que todos devam ter "praticamente o mesmo rendimento".
Assim, a opção (A) é a única que se alinha com a interpretação de Rawls apresentada no texto, que procura um equilíbrio entre a melhoria da situação dos menos favorecidos e a manutenção da eficiência económica.
⚠ Erro comum: Interpretar o princípio da diferença como uma busca pela igualdade absoluta de rendimentos ou pela redução máxima da riqueza dos mais afortunados. | Não perceber a nuance de Rawls de que a eficiência económica é um fator importante para garantir que os menos favorecidos realmente beneficiem.
Tópicos esperados segundo os critérios
Descrição do que, de acordo com o ceticismo radical, há de insatisfatório nas nossas crenças, de tal modo que estas não são conhecimento:
? uma das condições do conhecimento é que as nossas crenças, além de verdadeiras, sejam apropriadamente justificadas;
? o problema, segundo os céticos radicais, é que todas as justificações (possíveis) das nossas crenças acabam por ser, elas próprias, insatisfatórias, não sendo, portanto, apropriadas (pelo que nenhuma das nossas crenças pode satisfazer, segundo os céticos radicais, os requisitos do conhecimento).
Explicação
Os céticos radicais, ou pirrónicos, defendem que, embora possamos ter crenças verdadeiras, nunca podemos ter conhecimento. Para eles, o conhecimento exige três condições: crença, verdade e justificação. O problema não está na crença ou na verdade, mas na justificação.
Segundo os céticos radicais, qualquer tentativa de justificar uma crença acaba por ser insatisfatória. Eles argumentam que:
1. Regresso Infinito: Se uma crença B1 é justificada por uma crença B2, e B2 por B3, e assim sucessivamente, teríamos um regresso infinito de justificações, o que é impossível de completar.
2. Circularidade: Se a justificação de B1 acaba por depender de B1 (ou de uma crença que já foi justificada por B1), então a justificação é circular e não prova nada.
3. Dogmatismo: Se a justificação de B1 se baseia numa crença B2 que é aceita sem justificação, então essa crença B2 é dogmática e não serve como base sólida para o conhecimento.
Como todas as justificações caem numa destas três categorias (o trilema de Agrippa), os céticos radicais concluem que nenhuma das nossas crenças pode ser *apropriadamente* justificada. Consequentemente, mesmo que uma crença seja verdadeira, ela não satisfaz a condição de justificação necessária para ser considerada conhecimento. É por isso que, para eles, as nossas crenças, por mais que pareçam razoáveis, não atingem o estatuto de conhecimento.
⚠ Erro comum: Confundir a posição cética radical com a negação da verdade das crenças, em vez de focar na insuficiência da justificação. | Não explicar o porquê de as justificações serem consideradas insatisfatórias (por exemplo, não mencionar o trilema de Agrippa ou os problemas do regresso infinito, circularidade e dogmatismo).
Tópicos esperados segundo os critérios
Apresentação inequívoca da posição defendida.
Argumentação a favor da posição defendida – cenários de resposta:
No caso de o examinando concordar com Hume e defender que a nossa razão nunca consegue, sem ser assistida pela experiência, fazer inferências ou descobrir verdades acerca da existência real e da questão de facto
? o contrário de uma verdade de facto (OU questão de facto) é perfeitamente concebível pela mente, ou seja, tanto podemos conceber que um fósforo se acende ao ser riscado como podemos conceber que não se acende (OU tanto podemos conceber que um cubo de gelo se derrete fora do congelador como podemos conceber que não se derrete);
? apenas a experiência leva a mente a esperar que o fósforo se acenda ao ser riscado (OU que o cubo de gelo se derreta fora do congelador);
? a prova disso está em que, perante objetos que desconhecemos, se nos baseássemos apenas na análise das ideias que deles temos OU apenas em raciocínios a priori, nada poderíamos saber acerca do seu comportamento futuro ou dos seus efeitos.
No caso de o examinando discordar de Hume e defender que a nossa razão consegue, sem ser assistida pela experiência, fazer inferências ou descobrir verdades acerca da existência real e da questão de facto
? algumas proposições sobre coisas que existem podem ser descobertas apenas por raciocínios a priori (ou seja, usando apenas a razão);
? por exemplo, nós temos a ideia de um ser perfeito, mas nós somos imperfeitos e não podemos ser a causa dessa ideia;
? por isso, inferimos que tem de existir um ser perfeito, que pôs essa ideia em nós.
Explicação
A questão pede para o aluno se posicionar sobre a afirmação de Hume de que a razão, sem a experiência, não consegue fazer inferências sobre a existência real e questões de facto, e argumentar a favor dessa posição.
Posição de Hume (Empirismo):Se concordar com Hume, o aluno deve argumentar que:
- Questões de facto e o princípio da não contradição: Para Hume, o contrário de qualquer questão de facto é sempre possível e não implica uma contradição lógica. Por exemplo, "o sol não nascerá amanhã" não é uma contradição, ao contrário de "um triângulo tem quatro lados". A razão por si só não pode determinar a verdade ou falsidade de questões de facto, pois a sua negação é concebível.
- Causalidade e experiência: A nossa crença em relações de causa e efeito (como o fogo aquecer ou a água molhar) não deriva da razão, mas da experiência repetida. Não há nada na ideia de fogo que, por si só, nos faça inferir que ele aquece; é a observação constante que nos leva a essa expectativa. Sem experiência, não teríamos como prever o comportamento futuro dos objetos.
- Conhecimento a priori vs. a posteriori: Hume distingue entre "relações de ideias" (conhecimento a priori, como na matemática e lógica, onde a negação implica contradição) e "questões de facto" (conhecimento a posteriori, baseado na experiência, onde a negação é concebível). A razão opera apenas no domínio das relações de ideias; para as questões de facto, a experiência é indispensável.
Posição Racionalista (Discordando de Hume):Se discordar de Hume, o aluno pode argumentar a partir de uma perspetiva racionalista (como a de Descartes ou Leibniz), defendendo que a razão pode, de facto, por si só, inferir verdades sobre a existência real. Um exemplo clássico é o argumento ontológico para a existência de Deus (como o de Santo Anselmo ou Descartes):
- Argumento Ontológico: A partir da mera ideia de Deus como um ser perfeito, a razão pode inferir a sua existência. Se Deus é um ser perfeito, então deve possuir todas as perfeições, e a existência é uma perfeição. Logo, Deus deve existir. Este argumento é puramente a priori, não dependendo de qualquer experiência sensorial.
- Ideias inatas: Alguns racionalistas defendem a existência de ideias inatas (como a ideia de Deus, de perfeição, de substância) que a razão pode analisar para chegar a conclusões sobre a realidade, independentemente da experiência.
Ao elaborar a resposta, o aluno deve:
1. Declarar claramente se concorda ou discorda da afirmação de Hume.
2. Apresentar argumentos consistentes com a posição escolhida, utilizando exemplos claros e conceitos filosóficos relevantes (como a distinção entre relações de ideias e questões de facto, ou o argumento ontológico).
3. Garantir que a argumentação é coerente e bem estruturada.
⚠ Erro comum: Não apresentar uma posição inequívoca sobre a afirmação de Hume. | Confundir os tipos de conhecimento (a priori e a posteriori) ou as fontes de conhecimento (razão e experiência). | Apresentar argumentos que não são consistentes com a posição defendida ou que não se relacionam diretamente com a afirmação de Hume.
Tópicos esperados segundo os critérios
Apresentação da argumentação de Kuhn para defender a ideia de que «a competição entre paradigmas não é o tipo de batalha que possa ser decidida através de provas»:
? se fosse possível recorrer a um processo «mais ou menos rotineiro», «como o de contar o número de problemas resolvidos», para decidir qual dos paradigmas em competição é o melhor, teríamos uma prova a favor do paradigma escolhido;
? no entanto, «nenhuma das partes admitirá todos os pressupostos não empíricos de que a outra tem de partir para defender a sua posição», e isto significa que alguns dos pressupostos não empíricos (ou teóricos) de cada um dos paradigmas em competição não são partilhados pelos proponentes do paradigma rival;
? os proponentes de paradigmas rivais não partilham, por exemplo, o mesmo «conjunto de problemas científicos», nem o mundo em que esses problemas ocorrem – não há «um só mundo no interior do qual» se ocupam dos problemas –, nem partilham sequer «um conjunto de regras» que permita adotar soluções para os problemas;
? uma vez que esses pressupostos teóricos não partilhados são relevantes para a escolha de um dos paradigmas em competição por toda a comunidade científica, os proponentes de um paradigma não podem «esperar ter provas a seu favor», mas apenas «converter» os proponentes do paradigma rival.
Explicação
A questão pede para explicar, com base no texto de Kuhn, por que a competição entre paradigmas não pode ser decidida por provas. A teoria de Thomas Kuhn sobre a ciência, apresentada em "A Estrutura das Revoluções Científicas", enfatiza a incomensurabilidade entre paradigmas rivais.
De acordo com o texto e a perspetiva de Kuhn:
1. Ausência de um critério único e rotineiro: Kuhn argumenta que não existe um "conjunto de problemas científicos", "um só mundo" ou "um conjunto de regras" universalmente aceites que permitam decidir objetivamente qual paradigma é superior, como se fosse uma simples contagem de problemas resolvidos. Se existisse, a escolha seria "mais ou menos rotineira" e baseada em provas.
2. Pressupostos não empíricos não partilhados: Os proponentes de paradigmas rivais estão em "desacordo" porque não partilham os mesmos "pressupostos não empíricos". Estes pressupostos incluem as crenças metafísicas, os valores, as metodologias e as formas de ver o mundo que cada paradigma incorpora. Como não há um terreno comum de pressupostos, não há uma base neutra para a comparação.
3. Incomensurabilidade: A falta de pressupostos partilhados leva à incomensurabilidade, ou seja, os paradigmas são tão diferentes que não podem ser comparados diretamente por um critério objetivo. Eles definem os problemas de forma diferente, usam conceitos de maneiras distintas e até habitam "mundos" diferentes no sentido de que interpretam os dados de formas radicalmente distintas.
4. Natureza da "competição": A competição entre paradigmas não é uma "batalha que possa ser decidida através de provas" porque não há provas que possam ser aceites por ambos os lados. Em vez de provas, o que ocorre é uma tentativa de "converter" os proponentes do paradigma rival, o que sugere um processo mais próximo da persuasão do que da demonstração lógica ou empírica.
Em suma, Kuhn defende que a escolha de um paradigma sobre outro não é uma questão de prova objetiva, mas sim de uma mudança de perspetiva que envolve fatores sociais, psicológicos e históricos, devido à ausência de um conjunto comum de pressupostos e regras que permitam uma comparação neutra e decisiva.
⚠ Erro comum: Não explicar a ideia de incomensurabilidade entre paradigmas, que é central para a argumentação de Kuhn. | Focar-se apenas na ideia de que os cientistas não concordam, sem aprofundar as razões filosóficas (pressupostos não empíricos, diferentes conjuntos de problemas e regras) que Kuhn apresenta para essa falta de acordo. | Transcrever partes do texto sem as integrar numa explicação coerente da tese de Kuhn.
Tópicos esperados segundo os critérios
Apresentação inequívoca da posição defendida.
Argumentação a favor da posição defendida – cenários de resposta:
No caso de o examinando defender que a perspetiva mais plausível é a de que há justificações objetivas que determinam a escolha de uma das teorias em competição
? as teorias em competição são submetidas a testes experimentais rigorosos e independentes;
? testes experimentais genuinamente rigorosos e independentes são testes concebidos com o propósito de falsificar as teorias em competição;
? uma das teorias em competição poderá resistir às tentativas de falsificação a que foi submetida e a outra não;
? se os resultados de testes rigorosos e independentes mostram que uma teoria resiste às tentativas de falsificação a que foi submetida, mas que a outra não, é correto inferir que uma teoria é falsa e que a outra ainda não se revelou falsa;
? nesse caso, os testes fornecem uma justificação objetiva que determina a escolha de uma das teorias em competição, a qual passa a ser vista como corroborada, e a rejeição da teoria que foi falsificada.
No caso de o examinando defender que a perspetiva mais plausível é a de que não há justificações objetivas que determinam a escolha de uma das teorias em competição
? há critérios partilhados pelos proponentes de teorias em competição que são usados para fazer avaliações das teorias;
? esses critérios são, entre outros, a simplicidade, a consistência ou a exatidão;
? no entanto, estes critérios não fornecem regras que determinam inequivocamente a escolha de uma das teorias em vez de outra e têm, por isso, de ser interpretados sempre que são aplicados na avaliação de teorias;
? diferentes cientistas interpretam e aplicam de modos diferentes o mesmo critério e, por outro lado, o mesmo critério não tem o mesmo valor para diferentes cientistas, havendo, por exemplo, cientistas que preferem uma teoria mais simples e menos fecunda do que outra, e cientistas que, pelo contrário, preferem uma teoria mais fecunda e menos simples do que outra;
? por conseguinte, da aplicação destes critérios não resulta uma justificação objetiva a favor de uma das teorias em competição, e a adesão da comunidade científica a uma das teorias não é uma questão que possa ser decidida por meio de provas.
Explicação
A questão pede para o aluno se posicionar sobre a plausibilidade da perspetiva de Popper (justificações objetivas na escolha de teorias) em contraste com a de Kuhn (ausência de provas decisivas na competição entre paradigmas), e argumentar a favor da sua posição.
Perspetiva de Popper (Objetivismo):Se o aluno considerar a perspetiva de Popper mais plausível, deve argumentar que:
- Falsificacionismo: Popper defende que a ciência progride através da falsificação de teorias. As teorias científicas devem ser testáveis e, idealmente, refutáveis. A escolha entre teorias rivais é objetiva porque se baseia na capacidade de uma teoria resistir a testes rigorosos de falsificação, enquanto outras são refutadas.
- Testes cruciais: Quando duas teorias competem, são concebidos testes experimentais que visam refutar uma ou ambas. Se uma teoria é falsificada e a outra resiste, há uma justificação objetiva para rejeitar a primeira e manter a segunda (considerando-a corroborada, mas nunca provada).
- Progresso científico: Para Popper, o progresso científico é objetivo e cumulativo, no sentido de que nos aproximamos da verdade ao eliminar teorias falsas. A escolha de teorias é racional e baseada em evidências empíricas que podem refutar uma teoria em favor de outra.
- Racionalidade na escolha: A racionalidade científica reside na atitude crítica e na busca por falhas nas teorias, o que permite uma escolha objetiva baseada na sua capacidade de sobreviver a testes empíricos.
Perspetiva de Kuhn (Subjetivismo/Incomensurabilidade):Se o aluno considerar a perspetiva de Kuhn mais plausível (discordando de Popper), deve argumentar que:
- Incomensurabilidade: Como visto na questão anterior, os paradigmas são incomensuráveis, o que significa que não há um conjunto neutro de critérios ou observações que permita uma comparação puramente objetiva. A escolha envolve fatores não empíricos e subjetivos.
- Critérios de escolha de teorias: Kuhn reconhece que os cientistas usam critérios como simplicidade, consistência, exatidão, fecundidade e alcance para avaliar teorias. No entanto, ele argumenta que estes critérios são vagos, podem ser interpretados de diferentes maneiras e os cientistas podem atribuir-lhes pesos diferentes. Por exemplo, um cientista pode valorizar mais a simplicidade, enquanto outro prefere a fecundidade.
- Fatores não racionais: A escolha de teorias é influenciada por fatores sociais, psicológicos e históricos, como a autoridade de certos cientistas, a formação da comunidade científica, a capacidade de um paradigma resolver problemas que são considerados importantes por essa comunidade, e até mesmo a conversão dos cientistas de um paradigma para outro.
- Ausência de algoritmo: Não há um "algoritmo" ou um conjunto de regras explícitas que, aplicadas aos dados, levem inequivocamente à escolha de uma teoria sobre outra. A decisão é mais complexa e menos objetiva do que Popper sugere.
Ao elaborar a resposta, o aluno deve:
1. Declarar claramente qual perspetiva considera mais plausível.
2. Apresentar argumentos consistentes com a perspetiva escolhida, utilizando conceitos filosóficos relevantes (falsificacionismo, corroboracão, incomensurabilidade, critérios de escolha de teorias, fatores não racionais).
3. Garantir que a argumentação é coerente e bem estruturada, e que se contrapõe implicitamente (ou explicitamente) à perspetiva oposta.
⚠ Erro comum: Não apresentar uma posição clara sobre qual perspetiva é mais plausível. | Confundir os argumentos de Popper com os de Kuhn, ou vice-versa. | Apresentar argumentos genéricos sobre a ciência sem os relacionar especificamente com a questão da objetividade na escolha de teorias e as posições de Popper e Kuhn.
Tópicos esperados segundo os critérios
Caracterização, de acordo com a perspetiva formalista, da relação entre arte e emoção estética:
? um objeto é arte se e só se tem forma significante (ou seja, exibe certos padrões visuais ou sonoros, por exemplo);
? sabemos que estamos perante um objeto com forma significante quando esse objeto desperta um tipo especial de emoção nas pessoas com sensibilidade estética, e essa emoção de tipo especial (sui generis) é a emoção estética, que se distingue das demais emoções (OU emoções comuns, como a alegria, a melancolia, a nostalgia, a euforia) por ocorrer apenas diante das obras de arte;
? arte e emoção estética são indissociáveis (no sentido em que, por um lado, sem forma significante, ou sem arte, não há emoção estética e, por outro, não sabemos se estamos diante de obras de arte, ou de objetos com forma significante, se não formos capazes de sentir emoção estética).
Explicação
A questão pede para caracterizar a relação entre arte e emoção estética de acordo com a perspetiva formalista. O formalismo, uma das teorias da arte, defende que o que torna um objeto uma obra de arte não é o seu conteúdo, a sua mensagem, a intenção do artista ou o seu contexto, mas sim as suas propriedades formais.
Os pontos chave da perspetiva formalista, especialmente na versão de Clive Bell, são:
1. Forma Significante: Um objeto é considerado arte se possuir "forma significante". A forma significante refere-se a certas combinações de linhas, cores, formas e volumes que, quando organizadas de uma maneira particular, provocam uma resposta específica no observador. Não é a representação de algo (como uma paisagem ou uma pessoa) que torna a obra arte, mas a sua estrutura formal.
2. Emoção Estética: A forma significante é o que provoca uma "emoção estética" no espectador. Esta emoção é única, sui generis, e distingue-se de outras emoções quotidianas (como alegria, tristeza, raiva). É uma emoção pura, desinteressada, que surge apenas em resposta à contemplação da forma significante de uma obra de arte. É a prova da presença da forma significante.
3. Indissociabilidade: Para os formalistas, a arte e a emoção estética são indissociáveis. Não há arte sem forma significante, e não há forma significante sem a capacidade de provocar emoção estética. A emoção estética é o critério para identificar a forma significante, e a forma significante é o que define a arte. Assim, a experiência da emoção estética é fundamental para reconhecer um objeto como arte.
Em resumo, a perspetiva formalista estabelece uma relação intrínseca entre a forma significante de um objeto e a emoção estética que ele provoca, sendo esta emoção o indicador de que estamos perante uma obra de arte.
⚠ Erro comum: Confundir a emoção estética com emoções comuns (como alegria ou tristeza), sem destacar a sua natureza "sui generis" e a sua ligação exclusiva à forma significante. | Não explicar o conceito de "forma significante" como o elemento essencial que define a arte para os formalistas. | Não estabelecer a relação de indissociabilidade entre a forma significante e a emoção estética.
Tópicos esperados segundo os critérios
Distinção entre teorias essencialistas da arte e teorias não essencialistas:
? de acordo com as teorias essencialistas, certos objetos são obras de arte por possuírem propriedades intrínsecas essenciais à arte (havendo uma essência da arte e, assim, havendo objetos que são intrinsecamente arte);
? de acordo com as teorias não essencialistas, ser uma obra de arte é algo que depende apenas dos contextos que permitiram conferir a esse objeto o estatuto de obra de arte (não havendo objetos que sejam arte independentemente dos contextos em que tal estatuto lhes foi atribuído, nem havendo, por conseguinte, uma essência da arte ou algo que seja intrinsecamente arte).
Argumentação:
? o conceito de arte não diz respeito a coisas naturais, mas antes a algo que resulta da atividade cultural humana, mudando com as motivações, os interesses e os propósitos dos seres humanos;
? resultando de uma atividade dinâmica e eminentemente cultural, a arte acaba por adquirir «significados diferentes em culturas diferentes», variando também consoante as épocas, os lugares e as pessoas que dela se ocupam;
? dado que o modo como se encara a arte é (inteiramente) contextual, não há critérios fixos ou invariáveis (OU propriedades intrínsecas dos objetos) que nos permitam dizer o que conta, ou não, como arte;
? o que num dado contexto é considerado arte («um monte de tijolos» exposto num museu) poderá não ser considerado arte num contexto diferente (um monte de tijolos junto a uma casa em construção);
? assim, de acordo com as teorias não essencialistas, qualquer coisa pode ser arte, dependendo do contexto.
Explicação
A questão pede para argumentar a favor da ideia de que "tudo pode ser arte", começando por distinguir as teorias essencialistas das não essencialistas da arte. Esta é uma questão central na filosofia da arte contemporânea.
1. Distinção entre Teorias Essencialistas e Não Essencialistas:- Teorias Essencialistas: Defendem que a arte possui uma essência, ou seja, um conjunto de propriedades intrínsecas e necessárias que todos os objetos de arte partilham e que os distinguem de objetos não artísticos. Exemplos incluem a teoria formalista (forma significante) ou a teoria da arte como imitação/representação. Para estas teorias, nem tudo pode ser arte, pois um objeto só é arte se possuir essa essência.
- Teorias Não Essencialistas: Rejeitam a ideia de uma essência universal da arte. Argumentam que não há um conjunto de propriedades intrínsecas que defina a arte. Em vez disso, o que é considerado arte depende de fatores externos, como o contexto cultural, histórico, social ou institucional. Para estas teorias, o conceito de arte é "aberto" e pode evoluir, permitindo que "tudo possa ser arte" sob certas condições.
2. Argumentação a favor da ideia de que "tudo pode ser arte" (com base em teorias não essencialistas):Para argumentar que "tudo pode ser arte", o aluno deve recorrer aos princípios das teorias não essencialistas, como a teoria institucional da arte (Arthur Danto, George Dickie) ou a teoria histórica da arte (Jerrold Levinson).
- Natureza cultural e dinâmica da arte: O conceito de arte não é fixo, mas sim uma construção cultural e histórica. O que era considerado arte numa época ou cultura pode não o ser noutra, e vice-versa. A arte reflete as "motivações, os interesses e os propósitos dos seres humanos" e, como tal, está em constante evolução.
- Exemplos históricos: O texto menciona o surgimento do cinema e da fotografia, e a exibição de "um monte de tijolos ou uma pilha de caixas de cartão" em galerias. Estes exemplos ilustram como objetos que antes não seriam considerados arte passaram a sê-lo, desafiando as definições tradicionais e essencialistas. A "Fonte" de Marcel Duchamp (um urinol assinado) é um exemplo clássico de como um objeto comum pode ser elevado ao estatuto de arte pelo contexto.
- Importância do contexto: Para as teorias não essencialistas, o que confere o estatuto de arte a um objeto não são as suas propriedades intrínsecas, mas o contexto em que é apresentado e interpretado. Um "monte de tijolos" é apenas um monte de tijolos num estaleiro, mas pode ser uma obra de arte numa galeria, se for reconhecido como tal pelo "mundo da arte" (instituições, críticos, artistas).
- Ausência de critérios fixos: Se não há uma essência da arte, então não há critérios fixos ou invariáveis que determinem o que é ou não é arte. A arte é um conceito aberto, e a sua definição é continuamente negociada e redefinida pela comunidade artística e cultural. Isso implica que, em princípio, qualquer objeto pode ser proposto e, eventualmente, aceite como arte, desde que o contexto o permita.
Ao estruturar a resposta, o aluno deve primeiro apresentar a distinção clara entre as duas abordagens e depois desenvolver a argumentação a favor da ideia de que "tudo pode ser arte", utilizando os pontos acima e, se possível, exemplos concretos que ilustrem a natureza contextual e não essencialista da arte.
⚠ Erro comum: Não distinguir claramente as teorias essencialistas das não essencialistas antes de argumentar. | Argumentar a favor da ideia de que "tudo pode ser arte" sem recorrer aos princípios das teorias não essencialistas (como a teoria institucional ou histórica). | Usar exemplos sem explicar como eles ilustram a natureza contextual da arte ou a ausência de uma essência.
Tópicos esperados segundo os critérios
Apresentação do argumento ontológico:
? concebe-se Deus como o ser maior do que o qual nada pode ser pensado (OU o ser supremo); ora, se tal ser existisse apenas no pensamento, e não existisse também na realidade, não seria o ser maior do que o qual nada pode ser pensado, pois existir também na realidade é ser maior do que existir apenas no pensamento; logo, Deus existe também na realidade.
OU
a ideia de Deus é a de um ser maximamente perfeito; ora, a existência é uma perfeição (OU não existir é uma imperfeição); logo, Deus, sendo maximamente perfeito, não pode não existir.
Justificação da afirmação:
? o argumento ontológico procura demonstrar que Deus existe a partir unicamente da análise do conceito de Deus;
? nenhuma das premissas do argumento refere observações OU nenhuma das premissas do argumento é empírica.
Explicação
A questão pede para apresentar o argumento ontológico a favor da existência de Deus e, em seguida, mostrar que é um argumento *a priori*.
1. Apresentação do Argumento Ontológico:O argumento ontológico, formulado por Santo Anselmo e posteriormente por Descartes, tenta provar a existência de Deus a partir da mera análise do conceito de Deus. Existem duas formulações principais:
1. Deus é, por definição, o ser maior do que o qual nada pode ser pensado.
2. Um ser que existe tanto na mente (no pensamento) quanto na realidade é maior do que um ser que existe apenas na mente.
3. Se Deus existisse apenas na mente, então poderíamos conceber um ser ainda maior: um ser que existe tanto na mente quanto na realidade.
4. Mas isso contradiz a definição de Deus como o ser maior do que o qual nada pode ser pensado.
5. Logo, Deus deve existir também na realidade.
- Versão de Descartes (ou da perfeição):
1. Deus é um ser maximamente perfeito (ou seja, possui todas as perfeições).
2. A existência é uma perfeição (ou, não existir é uma imperfeição).
3. Portanto, Deus, sendo maximamente perfeito, deve possuir a perfeição da existência.
4. Logo, Deus existe.
2. Justificação de que é um Argumento *a priori*:Um argumento *a priori* é aquele cuja validade e cujas premissas podem ser conhecidas independentemente da experiência sensorial. A justificação de que o argumento ontológico é *a priori* reside no seguinte:
- Baseado apenas no conceito: O argumento ontológico não se baseia em observações empíricas do mundo. As suas premissas são derivadas da análise do conceito de Deus (seja como o ser maior do que o qual nada pode ser pensado, seja como o ser maximamente perfeito).
- Independência da experiência: Nenhuma das premissas do argumento requer qualquer tipo de experiência para ser conhecida ou compreendida. A validade do argumento (se for válido) e a verdade das suas premissas (se forem verdadeiras) são estabelecidas pela razão pura, pela lógica e pela compreensão dos conceitos envolvidos, e não por dados recolhidos através dos sentidos.
- Conclusão necessária: Se as premissas forem aceites, a conclusão (a existência de Deus) é apresentada como uma necessidade lógica, inferida diretamente do conceito, sem a necessidade de recorrer a evidências do mundo exterior.
Em suma, o argumento ontológico é *a priori* porque a sua força reside na coerência lógica e na análise conceptual, e não na observação empírica.
⚠ Erro comum: Não apresentar o argumento ontológico de forma clara e completa, ou confundi-lo com outros argumentos para a existência de Deus (cosmológico, teleológico). | Não explicar o que significa ser um argumento *a priori* no contexto do argumento ontológico, focando-se apenas na ausência de experiência sem aprofundar a ideia de análise conceptual ou necessidade lógica.
Tópicos esperados segundo os critérios
Formulação do problema:
? Serão os juízos morais expressões da sensibilidade pessoal, serão expressões dos padrões culturais da sociedade a que se pertence, ou serão suscetíveis de justificação objetiva?
OU
Do que depende a correção dos juízos morais? Dependerá da concordância com a sensibilidade pessoal, da concordância com os padrões culturais da sociedade a que se pertence, ou da concordância com os factos morais relevantes?
Apresentação inequívoca da posição defendida.
Argumentação a favor da posição defendida – cenários de resposta:
No caso de o examinando defender que terem a aprovação da maioria dos europeus torna corretos os juízos morais acerca do tratamento dos animais
? caso houvesse juízos morais suscetíveis de uma justificação independente dos grupos culturais, a descoberta do valor de verdade de tais juízos morais dependeria do apuramento de certos factos (por exemplo, factos relativos ao bem-estar individual ou social decorrente de uma prática, ou factos relativos a seres dignos de consideração moral);
OU
os juízos morais não dependem essencialmente de factos, pois, ainda que houvesse concordância em relação aos factos, poderiam subsistir divergências em relação à interpretação (moral) dos factos (por exemplo, em relação aos factos relevantes e ao que indicam acerca da desejabilidade de uma prática, ou acerca da consideração que as diferentes entidades merecem);
? os juízos morais dependem antes de (OU expressam) acordos sociais quanto ao que faz as comunidades (e os indivíduos) prosperarem, acordos estes formados ao longo do tempo, em função das circunstâncias, e inscritos nos padrões culturais das diferentes comunidades;
? nos países europeus, a alteração das circunstâncias conduziu a uma alteração das relações com os animais, deixando estes de ser encarados como meras coisas ao serviço das necessidades humanas (por exemplo, o desenvolvimento industrial permitiu a redução drástica do recurso a animais de trabalho, o desenvolvimento técnico tornou obsoletos muitos produtos de origem animal, o crescimento urbano separou as comunidades da criação e do abate dos animais destinados à alimentação, e o desenvolvimento económico permitiu que muitas famílias pudessem ter animais de estimação, em vez de animais de trabalho, como cães de guarda e de caça);
? considerar que os animais têm interesses que merecem consideração moral OU são sujeitos de direitos e que, nessa medida, devem ter as liberdades indicadas é uma parte do padrão cultural europeu atual (que, por sua vez, resultou da alteração das condições de vida da maior parte da população europeia).
No caso de o examinando defender que terem a aprovação da maioria dos europeus não torna corretos os juízos morais acerca do tratamento dos animais
? não sabemos a verdade acerca de muitos factos do mundo (por exemplo, não sabemos se há vida inteligente extraterrestre nem se, no presente quartel, haverá um terramoto seguido de um maremoto em Lisboa) e, em relação a estes factos, não cremos que tudo seja uma questão de opinião culturalmente formada (pelo contrário, em relação a estes factos, cremos que saber a verdade OU emitir um juízo correto depende de ter mais informação);
? em relação aos juízos morais (OU às avaliações morais de factos), também estamos dependentes de informação relevante (tanto empírica como conceptual) e, precisamente, à medida que obtemos essa informação, juízos morais falsos (como o de que a escravatura é moralmente permissível) são substituídos por juízos morais verdadeiros;
? no caso das questões que envolvem o bem-estar dos animais, a observação imparcial dos animais (e o consequente reconhecimento da sua capacidade de sofrer) e o crescente conhecimento da fisiologia e da psicologia dos animais permitiram compreender que não é moralmente permissível tratar (todos) os animais como meras coisas OU que alguns animais têm características que justificam a sua inclusão na comunidade moral (por exemplo, a capacidade de sofrer);
? considerar que os animais têm interesses que merecem consideração moral OU são sujeitos de direitos e que, nessa medida, devem ter as liberdades indicadas resulta de termos acesso a mais informação empírica e do debate racional sobre as consequências do que sabemos acerca dos animais.
OU
? os juízos morais, tal como os juízos estéticos (OU os restantes juízos de valor), são expressão de preferências pessoais (e não apreciações objetivas de factos do mundo, como os de que «em certos períodos do ano os dias são mais longos» ou «os dodós foram extintos pela ação humana há mais de 350 anos»), resultando tais preferências da sensibilidade de cada um;
? a sensibilidade de cada um pode ser semelhante à de outros, e as preferências de uma pessoa podem coincidir com as de outras (e a constituição psicológica dos indivíduos e as suas experiências de vida podem explicar as semelhanças e as coincidências, bem como as diferenças, ou seja, dizer que os juízos morais são subjetivos não é dizer que são arbitrários ou inexplicáveis), mas não se observa uma determinação social e cultural (dado haver quer semelhanças transculturais quer diferenças intraculturais);
? a maior parte dos humanos repudia o sofrimento, e tal repúdio está associado à perceção de familiaridade ou de semelhança das relações e das circunstâncias (por exemplo, condoemo-nos com pinguins que percorrem quilómetros para alimentar as suas crias e lamentamos o destino de gazelas recém-nascidas que são capturadas por leões, e isso deve-se a revermo-nos no esforço dos pinguins e na impotência da gazela, mas, em geral, não nos condoemos com vermes que são engolidos por pássaros);
? contudo, a sensibilidade moral, tal como a sensibilidade estética, pode ser exacerbada, refinada, diminuída ou atrofiada pelas experiências de vida, e isto justifica que muitos europeus queiram proteger ainda mais o bem-estar dos animais, enquanto outros mostram desprezo pelo bem-estar dos animais (por exemplo, pessoas que trabalham, em condições deploráveis, em aviários com milhares de animais podem tratar os animais a seu cargo com impaciência e brutalidade, devendo-se esta dessensibilização às circunstâncias em que se encontram).
Explicação
A questão aborda o problema da natureza dos juízos morais, especificamente se a aprovação da maioria torna um juízo moral correto, usando como exemplo o bem-estar animal na União Europeia.
1. Formulação do Problema da Natureza dos Juízos Morais:O problema central é:
Serão os juízos morais objetivos ou subjetivos?- Objetivismo Moral: Defende que os juízos morais podem ser objetivamente verdadeiros ou falsos, independentemente das opiniões ou sentimentos individuais ou culturais. A sua correção depende de factos morais ou princípios universais.
- Subjetivismo Moral (Individual): Defende que os juízos morais são meras expressões de preferências ou sentimentos pessoais. A sua correção depende da concordância com a sensibilidade individual.
- Subjetivismo Moral (Cultural/Relativismo Cultural): Defende que os juízos morais são expressões dos padrões culturais de uma sociedade. A sua correção depende da concordância com as normas e valores da cultura em questão.
2. Apresentação Inequívoca da Posição:O aluno deve escolher uma das posições (objetivista, subjetivista individual ou subjetivista cultural) e declará-la claramente.
3. Argumentação a favor da Posição:- Se defender que a aprovação da maioria *torna* os juízos morais corretos (Relativismo Cultural):
* Argumentar que os juízos morais são construções sociais e culturais. O que é considerado moralmente correto varia entre culturas e épocas, e é determinado pelos acordos e valores partilhados por uma comunidade.
* A "aprovação da maioria dos europeus" reflete um padrão cultural específico que evoluiu devido a circunstâncias históricas, económicas e sociais (como o desenvolvimento industrial, a urbanização, a posse de animais de estimação). Estes fatores moldaram a sensibilidade moral em relação aos animais.
* Exemplo: A mudança de perspetiva sobre o bem-estar animal na Europa, de animais como meros recursos para seres com interesses morais, é um reflexo de uma evolução cultural e de valores partilhados, não de uma descoberta de "factos morais" objetivos.
* A correção de um juízo moral, neste caso, é intrínseca à sua aceitação e integração nos padrões culturais da maioria.
- Se defender que a aprovação da maioria *não torna* os juízos morais corretos (Objetivismo Moral ou Subjetivismo Individual):
*
Perspetiva Objetivista: * Argumentar que a verdade ou falsidade de um juízo moral não depende da opinião da maioria. A maioria pode estar enganada (ex: a escravatura foi aceite pela maioria em muitas sociedades, mas isso não a tornava moralmente correta).
* A correção dos juízos morais depende de factos morais objetivos ou de princípios racionais universais. No caso do bem-estar animal, a crescente compreensão da capacidade dos animais de sentir dor e sofrimento, e o reconhecimento de que alguns animais possuem características que justificam consideração moral, são "informações relevantes" que levam a juízos morais mais corretos, independentemente da opinião popular.
* Exemplo: A evolução do conhecimento científico sobre a senciência animal pode levar a uma revisão dos juízos morais, mesmo que a maioria ainda não os tenha adotado. A aprovação da maioria pode ser um *sinal* de progresso moral, mas não a *causa* da correção.
*
Perspetiva Subjetivista Individual: * Argumentar que os juízos morais são expressões de preferências pessoais e sensibilidade individual, não de factos objetivos ou de padrões culturais obrigatórios.
* A aprovação da maioria pode indicar uma coincidência de sensibilidades, mas não confere correção intrínseca ao juízo. A sensibilidade moral de cada um pode ser moldada por experiências de vida, e pode haver diferenças intraculturais significativas.
* Exemplo: Embora a maioria dos europeus possa aprovar as regras de bem-estar animal, um indivíduo pode ter uma sensibilidade diferente (mais ou menos exigente) que não é invalidada pela opinião da maioria. A sua correção é pessoal.
O aluno deve escolher uma destas linhas argumentativas e desenvolvê-la com clareza, utilizando exemplos para ilustrar a sua posição.
⚠ Erro comum: Não formular claramente o problema da natureza dos juízos morais. | Não apresentar uma posição inequívoca sobre a questão. | Não usar exemplos concretos para sustentar a argumentação, ou usar exemplos que não são relevantes para a posição defendida. | Confundir as diferentes formas de subjetivismo moral (individual e cultural) ou não as distinguir do objetivismo moral.